REDAÇÕES DE ALUNOS
PROF. CHARLES
(UNICAMP) SUPERVALORIZAR A IMAGEM É DESVALORIZAR O HOMEM?
REDAÇÃO 01
Carapaça tecnológica
O reflexo de uma imagem em um espelho plano fisicamente trata-se de uma cópia diametralmente oposta ao objeto em questão. No entanto, a mente narcisista da sociedade moderna e seu padrão cultural inexplicavelmente deformam essa imagem. Até que ponto o meio externo ao ser pode manipular a mente e, consequentemente, deformar o corpo?
A necessidade de aperfeiçoamento tanto cultural quanto mental é uma tendência biológica. Fato este contatado também através de teorias como o “Darwinismo social” de Augusto Comte. Numa sociedade pós-moderna em que o visual é tudo, os mais belos permanecem e atingem os mais altos padrões sociais.
Para atingir tais padrões, lagartas passam anos em casulos caros e sofisticados, transformam-se em ninfas, pupas, até que finalmente atingem o estágio máximo da evolução. Os serres humanos, em contrapartida, não precisam passar por essas transformações, já que contam com a tecnologia para atingir tal fim.
Afinal, porque ser uma “traça-de-livros” se a tecnologia e a mídia são capazes de tornar-nos seres “superiores”, rumo à beleza de uma borboleta? Em busca dessa beleza “vale tudo”: o uso de grifes caríssimas, a ostentação de carros do momento, empregos que dêem status...
No entanto há um paradoxo entre a borboleta e o homem. Em busca da imagem perfeita, o homem, além de seguir um padrão cultural, acaba por inibir sua personalidade, supervalorizando o estereótipo e desvalorizando o ser. São borboletas que , encontradas na natureza, seriam encaradas como anomalias, enquanto que, na humanidade, já são uma tendência global.
A evolução social humana por conta da beleza exterior tem atingido níveis extremos. São carapaças incompletas que aperfeiçoam o reflexo, mas tiram a essência do ser. Uma obsessão que faz da alma simplesmente um corpo ou, pior ainda, uma etiqueta.
REDAÇÃO 02
Hamlet Contemporâneo
É inerente ao homem a busca pela perfeição. Profissional, intelectual,sentimental e (por que não?) esteticamente. Desde a infância, imprime-se em nosso subconsciente a idealização do ser humano completo. Tomem-se como exemplos os príncipes encantados e super-heróis de físico impecável. Mas até que ponto, na vida real e cotidiana, essa utopia não leva ao culto à superficialidade e ao preconceito?
A princípio, supervalorizar a imagem não implica a desvalorização do homem, visto que aquela é parte integrante deste. Valorizando-se a parte, valoriza-se, indiretamente , o todo. Veja-se a Grécia antiga, com sua apologia fragorosa a músculos esculturais, à aparência e ao físico. Quem ousaria , no entanto, questionar a intelectualidade e racionalismo gregos? O mesmo ocorre com o Renascimento na sua preocupação evidente com a forma, sem deixar , entretanto, de lado , o humanismo – valorização dos sentimentos humanos. Nessas culturas, havia complementação e unidade entre o homem no seu exterior e interior. “Mente sã em corpo são”.
O problema se dá quando há inversão de valores. Sendo impossível o ideal do homem perfeito, opta-se freqüentemente pelo que torna a ilusão mais fácil de ser aceita : a aparência impecável , mesmo que encobrindo uma mente quase irracional. A questão filosófica torna-se social: o preconceito velado está presente em cada pré-requisito de “boa aparência”, nos relacionamentos afetivos e constitui, até mesmo, uma das diversas causas discriminação racial e étnica. Aquele que não se parece com o padrão incutido pela sociedade não é digno dela e fica fadado a empregos inferiores, relacionamentos dificultados e chacota em patéticas comédias estereotipadas, que tantas vezes são reproduzidas em nosso dia-a-dia.
Na busca pela adequação à ditadura da aparência, mais vale parecer-se como modelo socialmente aceito que, de fato, fazer valer suas convicções pelo racionalismo. Shakespeare, que viveu no Renascimento, talvez hoje se visse obrigado a alterar sua obra-prima: “ser ou parecer, eis a questão”.
REDAÇÃO 03
Perfeição Artificial
O desenvolvimento farmacêutico, acompanhado dos avanços na medicina, tem proporcionado melhorias físicas e estéticas em pessoas que sempre sofreram preconceito ou insatisfação com o próprio corpo. Unidos ainda ao marketing que prega o consumismo, o visual tornou-se prioridade na vida de boa parte da população.
A beleza exterior é importante, não há como negar, principalmente quando convivemos com padrões estéticos tão exigentes. Mulheres e homens de corpos esculturais, com rostos sem nenhuma imperfeição, vestindo trajes de marcas famosas e na moda, publicidade esmagadora incentivando o consumo exagerado, os cosméticos milagrosos e as cirurgias perfeitas. É aceitável a busca pela melhoria quando pessoas sentem-se mal com o próprio visual ou são taxadas por isso. Estar bem consigo transparece autoconfiança, firmeza e bem-estar para os que estão ao redor na convivência diária.
Do lado oposto, temos o vilão. Os excessos chegam a ser compulsivos e até criminosos com o corpo. Pouco a pouco o ser vai dando lugar a inúmeras modificações cirúrgicas, aliadas a uma coleção de cosméticos, finalizando com todo tipo de produto que o cartão de crédito pode comprar, ofuscando o real brilho existente. Tornam-se escravos do artificial e cada ano envelhecido exige mais investimento e produção. Na contramão disso, aparecem nossas manias, virtudes, piadas, imponência sumindo atrás de uma máscara de maquilagem “milagrosa”.
Não há dúvida de que, por necessidade, insatisfação ou influência de outros, alcançar a perfeição ficou indispensável. Bom seria suplantar a barreira da valorização exterior, do artificialismo vicioso que domina e degenera a harmonia natural do corpo. Descortinar para o mundo a essência da diversidade, que seduz através da originalidade.
REDAÇÃO 04
Entre os nossos sentidos, o mais aguçado é a visão, e por meio dela, não só observarmos o meio a nossa volta, mas também nos comunicamos, seduzimos e somos seduzidos. Afinal quem não está preocupado com a aparência? E não é apenas corporal que zelamos, pois há outros tipos de aparência como a social e econômica.
Sabendo da imensa sedução e influência que as imagens exercem sobre nós, as empresas publicitárias super exploram as aparências de determinados produtos e acabam ditando padrões muitas vezes insustentáveis. Por exemplo, o padrão de beleza que valoriza somente corpos macérrimos e jovens para as mulheres e músculos para os homens. Assim, quando as pessoas escapam ao padrão - e certamente um dia escaparão sentem-se insatisfeitos e procuram meios de se satisfazer, consumindo produtos antienvelhecimento, emagrecedores, anabolizantes e até mesmo chegando a extremos como as cirurgias plásticas.
E, como não é só com o nosso corpo que estamos interessados em exibir, também procuramos roupas de marcas em destaque que nos destaquem - carros modernos e potentes que nos ofereçam um ar de liberdade, uma casa em um bairro nobre que supostamente nos deixe mais “nobre’’ . Enfim, viver virou uma busca incessante para manter as aparências, pois fatalmente a juventude, a beleza e nosso vigor físico se degradarão com o tempo; nosso carro, nossa casa, tudo sofre a ação indelével do tempo e perde os valores de outrora. Nos resta perceber que os verdadeiros valores não estão nas aparências, mas no que resulta de nossa existência e aprendizado.
Cada pessoa tem sua própria fisionomia, a velhice é inevitável e todo mundo, cedo ou tarde, morrerá. O que ficará de nós não será a nossa imagem, e sim a nossa parte invisível que é capacidade de compreender, interpretar e revelar os segredos da vida para os próximos que virão, já que o mundo é muito mais que um conjunto de imagens sedutoras.
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